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Vinland Saga: Uma pessoa vazia

No final de 2019, comecei a acompanhar a história de Thorfinn em Vinland Saga, simultaneamente a um período que passava por muitos questionamentos na minha própria vida.

Em Vinland, o foco na história por um bom tempo não é exatamente no protagonista, mas no homem que é seu objetivo, Askeladd, responsável pela morte de seu pai. Assistimos então, Thorfinn, tentando ao longo de anos efetuar sua vingança sem sucesso, e o pior, vivendo toda sua vida exclusivamente para cumprir esse objetivo.

Entendemos e temos empatia pelo sofrimento do garoto, e acompanhamos sua transformação até o nível que sua racionalidade era comparável a de um animal possível de ordenar e domesticar. Logo começamos a sentir tristeza por ele, pois cego pelo seu desejo de vingança, ele não consegue olhar para dentro de si, e nem viver uma vida para ele mesmo, apenas para os outros.

Ao final da primeira temporada, sem spoilers diretamente, Thorfinn se encontra num beco sem saída, notando o quanto do tempo de sua vida perdeu em um objetivo que não lhe levou a lugar algum, não lhe preencheu ou satisfez sua vida. Percebendo o quanto se tornou um homem vazio.

Indo para drogas mais fortes, continuei a saga lendo o mangá, e ali então vi um homem vazio se reencontrando e se preenchendo novamente. O que me trouxe novas reflexões para o momento que vivia minha vida.

Acredito que existem dois momentos na vida que alguém olha para dentro de si mesmo e pode se assustar com o que vê. Como vi acontecendo com o Thorfinn, e comigo mesmo.

Quando você saí da casa dos pais, ou precisa assumir responsabilidades adultas que nunca precisou antes, pode pensar ser alguém de potencial infinito, com muitos sonhos e todos aqueles que lhe suportam afirmando o como você pode ir longe. Entretanto, quando para e analisa ao seu redor, conforme as coisas tendem a não ser tão fáceis, você percebe que de fato ainda não construiu nada.

Você não é ninguém tão importante assim, apenas tinha o sentimento embutido em um ego de que era alguém importante, pois dentro de seu ciclo de relações humanas todos faziam você se entender como alguém importante. E de fato deve ser para essas pessoas, mas não é ninguém para o mundo em si.

A segunda e outra situação, deve ser quando você passou tempo demais obstinado em realizar um objetivo. Um sonho. E quando se depara com um beco sem saída, um caminho sem volta, do tempo e esforço que dedicou, e não obteve nenhum resultado concreto disso, acaba por se frustrar com tudo que realizou.

Isso me traz a uma conclusão: Somos todos vazios até sermos preenchidos. Mas enquanto não sabemos que somos vazios, que nunca fizemos nada que nos transformasse aos olhos do mundo, temos uma falsa sensação de preenchimento por aqueles que nos amam, e apenas o desamparo é capaz de trazer essa conscientização.

A partir daí, são possíveis dois novos caminhos, sucumbir ao vazio, deixando a ansiedade e depressão se instalar em você. Ou resignificar seu caminho, e buscar se preencher através do trabalho que concretizara seus sonhos e objetivos.

Isso é o que penso sobre a tal crise dos 20. Quando muitos tem que encarar um mundo que não foram realmente preparados para enfrentar, pois aqueles ao seu redor lhe protegiam até então com as melhores intenções.

Eu encontrei o vazio e o preenchi.

Outro personagem que sofre da agonia e que podemos acompanhar seu amadurecimento é Krian, do meu livro Power Heart, uma historia sobre liberdade e como preencher o vazio no peito de um jovem adulto. Você pode descobrir mais aqui.

Berserk: Um homem só amadurece quando aprende a perder

Na vida, desde de pequenos, nessa era de tecnologia, de infinitas possibilidades, somos ensinados a crescer e ganhar, mas quem nos ensina a diminuir e perder?

Guts foi um caso muito mais comum aos pequenos de outras eras menos tecnológicas, ele nasceu perdendo tudo. Sem pai, sem mãe, a sorte o fez ficar vivo. E o azar o fez sofrer.

Sem rumo e sem objetivo, apenas quando Guts empunha sua espada ele se sente vivo, ou melhor, apenas um sobrevivente.

Mais tarde, quando se junta ao Bando do Falcão, Guts descobre a amizade. Pela primeira vez tem pessoas queridas, alguém por quem se importar.

Entretanto, quando Griffith, seu melhor amigo, revela em uma conversa com a princesa que para ele um amigo seria alguém do mesmo nível, e não alguém abaixo dele, Guts se sente trocado, substituível, assim como a maioria de nós se sente quando descobrimos que nosso trabalho pode ser feito por qualquer outro, que talvez até cobre menos.

Nessa dor da substituição, Guts sentiu que para não perder o amigo deveria seguir em frente, e abandonar também o amigo, relembrando assim como antes todos o abandonaram. Mas essa separação provocou saudades, como quando um jovem se arrisca em uma imigração a trabalho sem saber no que isso vai dar. A distância da família, dos amigos, é uma perda. E tem que se agarrar ao que ele foi ate ali buscar, o emprego, ou um sonho.

Esse sonho chega em um patamar que parece possível, realizável, até que um ato errado, como o desejo de Griffiths por poder, ou ver sair pelas mãos a oportunidade tão prometida com uma mera ligação, ou uma mudança em uma lei, torna tudo a perder. De repente surge a dor de admitir uma decisão errada ao escolher sair do Bando, ou de casa. A dor junto do erro forçam o retorno, mas agora tudo é diferente: você é um homem que tinha algo e agora perdeu tudo.


Agora hoje eu só quero ouvir essa versão de Gatsu:

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